Foto: Felipe, Porto de Galinhas, Jan 2010



sábado, 28 de janeiro de 2012

Sabores...



           Sabor de Gargalhadas
: Época de adolescente, amigos em casa. Estamos na cozinha. Minha mãe cozinhando e, um dos nossos amigos, metido a saber de tudo, afirma conhecer o condimento que ela utiliza. Minha mãe percebe ser coisa de jovem que, uma vez se sentido desafiado, veste a armadura do imbatível todo poderoso... Ela propõe a pegadinha “Se conheces, sabes que tem um gostinho doce...”, ele, teimoso, mas ingênuo, acredita e abocanha com vontade a tal raiz. Com um pedaço enorme e cru, sorri dizendo “viram, eu falei para vocês que era gostoooo...”, engasga com o ardido que aumenta a cada mastigada, começa a tossir. E nós? Caímos nas gargalhadas da piada, “doce hein?, kkk”.

Sabor de Solidão Amparada: Fim da graduação em psicologia. Refúgio do cotidiano. Mistura de tristeza e alívio. Necessidade de finalizar a monografia. Retiro-me numa pousada dentro do cerrado, em volta a cachoeiras. Escrevo, durmo, acordo, como e escrevo. Escrevo, paro, Escrevo. Escrevo, mergulho na cachoeira, como, escrevo. Esfria. Escrevo. Escrevendo não percebo a gripe me assaltando. Gripo. Não escrevo. Tusso. Sem parar eu tusso, paro. Tento comer, paro. Tusso. Lá de dentro da cozinha sai um rapaz de expressão meiga, com uma caneca na mão. Ele se aproxima de mim e diz “Bebe que vai te fazer bem”. Diz e retorna ao seu canto. Eu bebo. Está morno, tem um gosto doce de maça, espera, um gosto forte também, forte mesmo. Minha garganta arde. Do ardido à anestesia. Eu paro de tossir. Paro para sentir. A tristeza ainda existe. A ansiedade se acalma. Mesmo só, sozinha não estou.

Sabor de Conquista: Estamos sós, eu, meu filho e a cozinha. Uma nova receita. Uma dica de biscoito inesquecível. Uma receita fácil de se fazer. Mistura-se aveia fina, aveia grossa, óleo, açúcar mascavo e condimentos à gosto. Faz-se bolinhas, achata-as, coloca-as na assadeira e leva ao forno. Quarenta minutos após, os biscoitos estão lindos, apetitosos. A conquista está na nossa cara. Meu filho prepara um suco para acompanhar o lanche. Eu arrumo a mesa. Sentamos.  Diante do pote com biscoitos, pegamos cada um, um. Meu filho, beberica do suco, enquanto me observa dar a primeira mordida. Crocante, escutamos o barulho. O açúcar mascavo se faz presente, os flocos de aveia também. Um gosto bom, muito bom, doce e, forte, muito forte, esquenta a garganta, esquenta muito a minha garganta, arde... vejo os olhos do meu filho se abrindo e se espantando, “bebe o suco mamãe...” Eu bebo, volto a respirar, bebo mais um gole e digo: “O suco está perfeito!”

Sabor de cura: Outra crise de tosses me aprisiona. A terceira seguida, na mesma época do ano, no frio e na secura da cidade. Água acalma a tosse só enquanto está passando pela garganta. A tosse retorna. A água também. E o banheiro não me deixa. Tiro o moletom para fazer xixi. O vaso está gelado. Tusso. O xixi sai com força. Tusso sem parar. Acabo de urinar. Sigo para dentro das colchas. Outro gole de água. Tusso. E não paro de tossir. O telefone toca, uma amiga tenta dizer algo. Não escuto. Tusso. Novamente tusso. Dá tempo de me despedir e desligo o telefone. Bebo água. Levanto novamente para fazer xixi. A campainha toca. É minha amiga, ela me dá balinhas. Balinhas? Forma curiosa de curar uma tosse. Abro o pacote. Tusso. Pego uma bala. Tusso. Tossindo,  descasco a bala. Coloco a pequenina na minha boca. Tusso. Sinto o gosto do mel, é bom, quente, levemente ardido, anestesiante. Bom. Muito bom. Não preciso mais de tanto banheiro. Preciso de muitas balas.

Sabor de Criança: Preciso de muitas balas. Nas crises alérgicas da minha garganta. E para suprir as vontades alérgicas da pele de meu filho. É proibida a friagem no meu pescoço, eu aprendo. É proibido o consumo de corantes e aromatizantes na pele do meu filho, aprendemos. Balas, pirulitos, chicletes estão proibidos... Como assim? Criança sem guloseimas? Não me contento. Lembro das balas da cura. Ofereço. Meu filho detesta, elas lhe ardem. Busco outras marcas, acho. Ofereço. Elas lhe ardem. Busco outras. Acho um pirulito. Caseiro. Provo. Muito bom, doce e um leve, muito leve ardido, no fim. Compro um monte. Preparo uma espécie de compoteira de cristal, repleta de pirulitos. Convido meu filho para a festa das gulosices. Ele vem. Curioso. Vê o cristal recheado. Escolhe um, descasca e prova, “Bom mamãe, muito bom, doce, muito doce, gostoso. Oba! Que bom, tenho pirulitos só para mim!”

E assim,
Defino o gengibre para mim:
Tem gosto de gargalhadas, de crianças,
De solidão amparada, de conquistas, tentativas,
De cura e de lembranças,
Doces e fortes, sim.


Fernanda Matos. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

RESUMIDAS IMPRESSÕES: O Segredo da Vovó Maria


Autora: Carla Caruso
Ilustradora: Rosinha Campos

Parece coincidência escrever sobre outra história de vó, só que como já disse não crer em coincidências, acho que as últimas leituras estão me trazendo as minhas próprias lembranças de avós e da minha infância. Deve ser para me levar mais ainda ao mundo da criança, tentando me colocar como uma leitora,  escritora e ilustradora infantil, pode ser...

O Segredo da Vovó Maria foi o primeiro livro de Carla Carusa que eu li. É um livro que estimula a curiosidade, desde o título. Quem não tem segredos? Quem não os contou em sigilo absoluto a amigos de muita e extrema confiança, pelo menos um amigo? Quem não se sente lisonjeado ao receber uma confidência de uma pessoa que lhe é especial? Quem nunca na infância brincou de algum tipo de jogo ou construiu alguma coisa secreta? Ou teve um diário? O tema do segredo é sempre tão empolgante!

Carla Caruso foi feliz em unir a temática do segredo com um ícone bastante simbólico, carregado de mistério e que guarda o que não precisa ser visto o tempo todo, ou pelo contrário, o que precisa ser escondido: o armário... Outro dia mesmo, eu imaginando com meu filho construir uma casa para nós, a desenhamos mentalmente com dois quartos com armários de fundos falsos, que dariam num quartinho secreto, onde ninguém saberia nem como entrar, logo, um lugar perfeito para guardar segredos e preciosidades. Um cadinho ou cantinho alquímico, onde as transformações mais individuais e profundas podem acontecer.

Eu juro, juro mesmo que sempre sonhei com um armário de fundo falso. Adoro a sensação da luzinha pendurada no teto e o som de click. Aliás, escutei ao ler Carla  e ver Rosinha Campos o click ligando e desligando e o susto da menina fazendo travessura, mexendo nas coisas de vó. E agora, acabo de recordar, não do armário, mas dos segundo e terceiro gavetões da cômoda do meu bisavô, que continham papéis de seda para fazer pipas e caixas trançadas. Como eu adorava bisbilhotar e cutucar aquelas gavetas.

As vezes, fazia até sem pedir permissão, exatamente como a personagem do livro, e ficava brava ao ouvir o ranger do velho móvel, com medo de ser descoberta e repreendida. Em cima dessa mesma cômoda, os perfumes e o talco da minha bisavó, parecidos com os da avó da autora. É, boas lembranças. Acho que se deixar, fico cada vez lembrando mais detalhes das férias caseiras na casa dos meus bisavós maternos. Tempos bons. Um bom livro. Mesmo, confesso, não tendo gostado do final, porque a minha mente adulta esperou um segredo menos pedagógico e mais endiabrado da Vó Maria.

Assim é a vida. As vezes mais vale sentir o seu suspense do que descobrir o seu segredo. Arrepio de alma na travessia... Travessia ilustrada meigamente por Rosinha Campos. Esse foi o sentimento que suas formas originais me evocaram. Formas que me levaram também a recordar, daquelas pequeninas bonecas feitas de cabeça de palha, com corpo de chita preenchido de ervas cheirosas, para colocar nas gavetas. Delícia de cheirinhos...

Cheirinhos de erva, de terra, de antigo, de aconchego, de vó, de colo, de marrom. O tom marrom que Rosinha bem utilizou em O Segredo da Vovó Maria. Um livro gracioso, que chama pelo passado de volta, no caso de um leitor adulto, ou que incentiva a vivencia das relações entre as gerações. Um livro inspirador da brincadeira do potinho dos segredos ou dos desejos. Enfim, usar a imaginação inspirada em Carla e Rosinha, pode nos levar a lugares secretos e inesquecíveis, na escola ou em casa, ou dentro da gente mesmo.

Fernanda Matos.

domingo, 15 de janeiro de 2012

RESUMIDAS IMPRESSÕES: A Menina, o Cofrinho e a Vovó


Autora: Cora Coralina
Ilustradora: Claudia Scatamacchia

Cora Coralina é uma das existências mais doces que conheço. Queria eu ter experimentado seus doces feitos por suas próprias mãos, na deliciosa e aconchegante cozinha, varanda, pomar, na casa que tive o privilégio de visitar, com meu filho e com nossa amiga Raynne, numa das nossas várias viagens a cidade do Goiás. Aliás de Goiás Velho tenho ótimas lembranças, muitas inspirações e saudades.

Pensando melhor, os cristalizados doces cozidos no tacho de Cora, não os comi, mas me lambuzo com as palavras cosidas nos diversos livros que ela nos deixou. A Menina, o Cofrinho e a Vovó é um desses quitutes de abacaxi que tanto amo. Um livro delicado, carinhoso, autobiográfico. Um docinho que poderia ser azedo se não fosse adocicado. Um pedacinho da vida de Cora contado com suavidade, apesar da dificuldade ali vivida.

Claro que é difícil sustentar uma vida simples, com ideais nem tão simples. Viver de doce e palavras, porém viver cotidianamente com prazer naquilo que se faz. Quantos de nós, em nome de coisas que aparentemente desejamos, trabalhamos em lugares que não gostamos? Sustentar-se no lugar simples como fora a casa da ponte não é tão simples, mas é recompensador.

Recompensa que a vovó do livro recebeu do cofrinho da menina que a ajudou na compra da tão necessária geladeira. Geladeira “conservadeira“ de caldas ou “combatedeira” do inimigo bolor. Recompensa, que a avó deu para a menina, neta, ao deixar testamentado neste livro, uma pequena grande vivencia de amizade, credibilidade, incentivo e amor entre as duas.

Recompensa, confirmada na confissão da menina Célia que virou mulher, anos e anos depois. Cora e a avó deste livro deixaram de herança não somente a bondade, nem tão só a disponibilidade, nem somente o livro, mas, principalmente, a busca de viver onde se ama viver. Célia, a neta, moradora de Palmas, diz: “Renasci e sou feliz, na terra de Cora Coralina que hoje se chama Tocantis.

Feliz é o livro. Felizes são as suas ilustrações. Talvez, eu as pensasse em traços ou tons envelhecidos, assim como sinto a casa da ponte e as coisinhas de Cora que lá estão, ou mesmo as sensações que a cidade me provoca. Por outro lado, compreendo e gosto dos felizes desenhos de Cláudia Scatamacchia, das cores da vida e da alegria de seus cenários.

Percebo a aquarela, que tanto amo, nas mãos de Cláudia. Pergunto-me se houve um acabamento no computador, pois sinto uma certa perfeição que ainda não alcancei nos meus pincéis, tintas e papéis. Acredito que essa pergunta tenha mais a ver com a minha curiosidade de aprendiz de ilustradora. Assim, como curiosa sou diante da escolha de Cláudia expressar, em sua maioria, olhos da avó tão introspectivos. Eu sinto os olhos de Cora mais atentos e comunicativos. Mas essa é a Cora, e no livro é uma avó também de Cláudia. Abelhudice minha, talvez...

Seja como for, gostei do resultado e recomendo para crianças pequenas, para as vovós lerem para elas, ou para todos que se sentem ligados ao mundo da vovó doceira ou da doçura de vó. Esse livro marca com arte a relação de netos e avós. Sugiro ainda, para quem tem vontade de incentivar o projeto, aparentemente impossível, de alguém que goste e que se empenha de maneira doce no cozimento da própria vida.

Fernanda Matos.

RESUMIDAS IMPRESSÕES: A Vida Íntima de Laura


Autora: Clarice Lispector
Ilustrador: Sérgio Matta

Puxa, como demorei a criar coragem para escrever sobre um livro de Clarice Lispector. Ela, uma escritora sui generis, com reconhecimento nacional e internacional, quase uma divindade da literatura brasileira, como eu poderia falar qualquer coisa de sua obra? Realmente me dei um nó. Fui lentamente o desatando e aqui estou, diante da Vida Íntima de Laura.

O livro que temos em casa está bem marcado pelo tempo. Suas páginas amareladas e algumas soltas foram editadas pela José Olympio Editora, em sua 4a edição e publicadas em 1979, com  imagens criadas por Sérgio Matta. O livro atualizado foi editado pela Rocco e ilustrado por Flor Opazo. Escrevo diante das ilustrações de Sérgio, conforme o livro que tenho em mãos.

Não sei se foi a limitação do processo de diagramação e gráfica da época, ou limitações financeiras, ou a escolha do ilustrador, o que pouco me importa, porque na verdade o uso combinado de duas cores apenas, e o laranja e preto, principalmente hoje, traz-me uma sensação de raridade, um tesouro histórico do começo da trajetória da literatura infantil brasileira.

Percebo não só a bicromia da época, mas a própria construção da ilustração com informações e cenários reduzidos, o que pode revelar mais uma vez a idade do livro, ou a tendência de um tempo ou a experiência de um ilustrador, ou apenas o seu estilo, como mais ou menos eu ainda produzo, em minhas iniciantes tentativas de ilustradora. Seja como for, Sérgio Matta consegue registrar os cocoricós de Laura, como se o som saísse da boca desenhada, ou mesmo o colo e conforto maternais de Laura ao chocar seu filho Hermany. São ilustrações imperdíveis, como disse, uma raridade.

Raridade é raridade. Raridade é Clarice. A Vida Íntima de Laura pode ser somente uma historiazinha para crianças pequenas, uma do tipo daquelas que a gente inventa na hora de dormir. Até me fez lembrar das noites escuras das férias, as histórias contadas oralmente a quatro vozes e mentes, por mim, meu filho e minhas duas sobrinhas. Como quando a gente inventa a partir de uma palavra e em sequencia, cada um cria uma parte da história.

Parece Clarice. Ela brincou com a palavra galinha. Daí foi inventando parágrafo a parágrafo e nas pausas de suas invenções, ela conversava com o leitor, como se estivesse ao lado brincando como nós.  Essa é uma forma lúdica de interpretar Clarice, porque no fundo, pode-se entender que uma galinha viva tem sentimentozinhos e pensamentozinhos como gente, ou gente como galinha.

De maneira leve, a autora falou sobre a vaidade, a lealdade, o medo da morte, a crença na vida, mesmo que de outro planeta, ou em outro tempo, ou com outra finalidade. É tão leve e rápida a abordagem desses temas, que poderia passar desapercebida ou poderia não ter sido planejada. Mas vindo de Clarice Lispector, que me fez chorar pela morte de uma barata, duvido que esta forma de extrair e expressar o simplório e desprezado mundo seja pura coincidência. Não acredito em coincidências. Acredito em essência, era da personalidade da escritora utilizar da vida, da imaginação e da criação assim, até meio chocante.

Para terminar, confesso não ter gostado de algumas interações que a autora faz com os leitores, traz a marca antiga, para mim pouco rica, de um tempo em que a escrita para infância objetivava ser moral e educativa. Talvez porque fosse seu terceiro livro infantil. Percebi isso também acontecer com outros escritores e comigo também no meu primeiro livro. Mais madura, sei que criança não precisa de moralismos, no entanto, tem sede de Poesia, de Prazer, de Sentir!

Fernanda Matos.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

RESUMIDAS IMPRESSÕES: ASAS BRANCAS


Autor: Carlos Queiroz Telles
Ilustrador: Rogério Borges

Hoje, enquanto estava relendo Asas Brancas, meu filho me viu e repetiu umas quatro vezes: Esse livro é muito bom! E ele tem razão. Assim que o vi no sebo, sabia que iríamos gostar muito. Carlos Queiroz Telles afirmou ser quase um livro autobiográfico.
E ouso dizer que alguns leitores também poderiam qualifica-lo assim, mesmo não o tendo escrito. Eu, por exemplo...

As crianças criadas em cidades grandes, como eu fui, um pouco menos como o meu filho tem sido, e mais como alguns coleguinhas dele são, estão tão inseridas na modernidade, na tecnologia, nos passeios urbanos, que não saberiam quais sensações que o mundo natural provoca. Aliás, muitos adultos e seus filhos constroem impressões errôneas, acusando a vida rural de suja, incômoda, desinteressante, antiquada, ruim...

Zeca, um menino de dez anos, urbano, conseguiu superar os desafios encontrados diante do que era novo para ele, o mundo da fazenda, do café da manhã quente na teta, da sobremesa pronta na árvore, do banho nu no rio, da amizade de uma cobra (não aquela venenosa da cidade), da surpreendente família feliz de corujas piantes, do silêncio que também é escuro, do escuro que brilha longe com a multidão estrelar lá do céu...

 Do cavalo que é bem diferente da bicicleta, apesar da parecida sensação de aventura... Ah, os cavalos... Ainda bem que são eles que trazem para o nosso cotidiano, meu e do meu filho, a proximidade com a natureza. Os bichos que nos olham, que nos conhecem pelo cheiro da verdade, da entrega, da parceria, da comunhão pela liberdade. O vento na crina, nos cabelos, no pescoço, as pernas do cavalo que voam e as do cavaleiro que abraçam, a solidão acompanhada.
Foram tão lindas as palavras do autor ao descreverem o momento solitário de Zeca. Ele galopando, nadando, descansando, voltando mais ainda inteiro. Inteiro como o livro, com um título perfeito: Asas Brancas, asas de quem voa livre, brancas de quem possui todas as cores, todas as possibilidade, tudo que há na vida natural. Carlos você me confirmou, há situações na vida, que são inesquecíveis e podem, precisam, ser compartilhadas com arte, literatura.

Com literatura e ilustração juntas que fomentam a nossa curiosidade, a nossa vontade de experimentar o diferente que integra a gente. Como num beijo. O primeiro beijo, sensivelmente descrito por Carlos. Aquele que a gente não esquece, porque marca uma nova fase, tão naturalmente bela e apaixonante. Aquele beijo que não é cobrado socialmente na turminha dos amigos, nem vendido em programas de TV ou escritos vazios. Aquele beijo que existe na hora certa e muda a noção silenciosa e individual de hora e de certo. Que é único e coça para ser lido, visto, sentido. Aquele beijo que dá sentido, porque tira o sentido.

E Rogério Borges me ofertou um novo sentido, tirando o sentido. Suas ilustrações misturam tintas, cores, texturas, imagens e pixels. E esses pixels me roubaram o sentido e a razão de defesa de uma arte somente feita no papel. Rogério me instigou a conhecer o computador também como ferramenta de um ilustrador, o qual só poderá ser aproveitado se o usuário o fizer com amor, arte, dom de comunicar, de sensibilizar, de criar.

Carlos e Rogério voaram ligados com suas Asas Brancas e o resultado só poderia ser um livro rico, completo, a ser aproveitado em casa e na escola. Para quem gosta de ler um pouco mais do que o pouquinho, para quem gosta de desenhar lindos cenários na imaginação, para quem gosta da vida da fazenda, da mistura dos bichos selvagens e domesticados, das leves aventuras que tornam as leituras viagens reais, nas emoções e nas reações físicas, esse é um bom livro para se adquirir.

Na escola, um vasto projeto a ser trabalhado, com crianças talvez do quinto ou sexto ano, inserindo a arte, escrita e desenhada; a fotografia; o computador; as experiências individuais das férias e das feras; do medo e da superação dele; do amor e do beijo sem jogos, sem fofocas, sem pressões; da árvore que emociona, só porque Zeca se sentou em suas raízes e sentiu algo tão profundo, que não era tristeza, apesar das lágrimas, mas tão só águas limpadoras da alma. Vale a pena. Esse livro é muito bom!

Fernanda Matos.

domingo, 8 de janeiro de 2012

RESUMIDAS IMPRESSÕES: FLORA


Autor: Bartolomeu Campos de Queirós
Ilustradora: Ellen Pestili

Não sei por onde começar a escrever minhas resumidas impressões de Flora... Já tentei vários começos e nenhum alcança o meu desejo de estar a altura de Bartolomeu Campos de Queirós... Também, que pretensão ingênua e fantasiosa a minha... É que, Bartolomeu é tão sensível, tão poético, tão delicadamente revolucionário, no sentido de cutucar meu peito, fazendo-me respirar lenta e transformadoramente, que gostaria de escrever um pouquinho metaforicamente como ele, pelo menos aqui nesse momento, mas pelo visto, só usando suas próprias palavras. É que sinto ele tão profundo com as palavras, que não encontro outras para descrever Flora. Sigo, tentando...

Flora me faz lembrar do nome da minha saudosa bisavó Floripes. Onde será que ela está? No eterno, responderia Flora. Uma personagem admiradora do tempo, do tempo que venta as folhas das árvores, soprando sementes pelo mundo. Do tempo que nunca efetivamente morre, porque renasce o tempo todo. Do tempo infinito da mãe, da terra, que gesta, que pare, que cresce, que morre e que volta a viver. Do tempo calmo que para, prepara o solo, semeia, colhe e contempla cada tempo, o tempo todo. E a todo tempo, a cada palavra, Bartolomeu perpetua a minha sensação de que a minha bisa vive árvore ou semente em outras terras...

Qual parte da minha bisa que vive em mim, para além dos gens e do físico? Flora responderia: a parte que continua disponível para o fruto, para o filho, para a infância, para o milagre de ser útero, terra, onde se germina e se observa o ciclo da vida. Minha bisavó está em mim, porque ela apodreceu e foi alimento, adubo, para as sementes da nossa família aflorarem. Apoio-me em Flora e descanso, porque posso acreditar, posso saber como “Flora sabia morar em cada semente uma floresta, árvore, galho, fruto, flor e sempre.” Minha bisavó mora em mim, assim como eu moro no meu filho. E como já moro no meu bisneto que um dia será a semente... “Era preciso apenas paciência para outras vidas serem reinventadas...” Porque no fundo, sempre acreditei que “a semente traz o antes e o depois...” Posso suspeitar acompanhada de Bartolomeu como “Flora suspeitava ser para sempre a vida...”

Inspirada na personagem, posso também me certificar que a arte da minha vida ainda é semente e, que mantida as diferenças com o respeito merecido, cada um de nós tem seu próprio estilo de florir e adubar, porque quero saber como Flora sabia “que cada semente guardava uma esperança para virar verdade...”  E a verdade é que sou apaixonada por Flora e por Bartolomeu e por Ellen Pestili, por meu filho, por árvores, por terra, por cães, por cavalos, por corujas, por animais, por palavras, por desenhos, pela arte e pelo amor.

Confessora amante da vida natural, veterinária e ilustradora, na verdade criadora de lindas imagens, Ellen colou, pintou, transformou a madeira em árvore de novo. Sua criação original é encantadora e impressionante. Tatuou a Flora aonde a personagem mais gostaria de estar, na natureza, junto das sementes, das folhas, das flores, das árvores. Pintou olhares de esperança, de entrega, de dúvida ou de certeza, de cuidado, de descanso.

Cuidou do solo que recebeu sua criação, lixou, alisou, colocou os grãos na palma de sua mão e os colou, plantou para todo o eterno num livro inesquecível. Floresceu criativamente outra maneira de desenhar um livro. Utilizou diferentes materiais e os alinhavou harmonicamente. Passo a minha mão em cada página de Ellen e sinto as saliências da superfície da terra... E se eu pudesse, bordaria um vestido branco florido e semeado como o de Flora.

Linda a parceria desses dois poetas. Esse, sem dúvida nenhuma, é outro livro que indico para todas as idades. Um livro para ser lido e contemplado no silêncio que existe em nossas almas. Para ser compartilhado no íntimo das relações. Um livro que revolucionaria a literatura escolar, afinal, introduziria uma aprendizagem para além da gramática de um português bem escrito, ou da literatura clássica, ou das técnica artísticas. Um livro a ser tocado e revirado delicada e detalhadamente dezenas de vezes. Porque a cada tempo, parafraseando Bartolomeu, uma semente plantada, canta sua poesia e apresenta seu bilhete para diversas viagens...

Fernanda Matos.