Sabor de Gargalhadas: Época de adolescente, amigos em casa. Estamos na cozinha. Minha mãe cozinhando e, um dos nossos amigos, metido a saber de tudo, afirma conhecer o condimento que ela utiliza. Minha mãe percebe ser coisa de jovem que, uma vez se sentido desafiado, veste a armadura do imbatível todo poderoso... Ela propõe a pegadinha “Se conheces, sabes que tem um gostinho doce...”, ele, teimoso, mas ingênuo, acredita e abocanha com vontade a tal raiz. Com um pedaço enorme e cru, sorri dizendo “viram, eu falei para vocês que era gostoooo...”, engasga com o ardido que aumenta a cada mastigada, começa a tossir. E nós? Caímos nas gargalhadas da piada, “doce hein?, kkk”.
Sabor de Solidão
Amparada: Fim da graduação em psicologia. Refúgio do cotidiano. Mistura de
tristeza e alívio. Necessidade de finalizar a monografia. Retiro-me numa
pousada dentro do cerrado, em volta a cachoeiras. Escrevo, durmo, acordo, como
e escrevo. Escrevo, paro, Escrevo. Escrevo, mergulho na cachoeira, como,
escrevo. Esfria. Escrevo. Escrevendo não percebo a gripe me assaltando. Gripo.
Não escrevo. Tusso. Sem parar eu tusso, paro. Tento comer, paro. Tusso. Lá de
dentro da cozinha sai um rapaz de expressão meiga, com uma caneca na mão. Ele
se aproxima de mim e diz “Bebe que vai te fazer bem”. Diz e retorna ao seu
canto. Eu bebo. Está morno, tem um gosto doce de maça, espera, um gosto forte
também, forte mesmo. Minha garganta arde. Do ardido à anestesia. Eu paro de
tossir. Paro para sentir. A tristeza ainda existe. A ansiedade se acalma. Mesmo
só, sozinha não estou.
Sabor de Conquista:
Estamos sós, eu, meu filho e a cozinha. Uma nova receita. Uma dica de biscoito
inesquecível. Uma receita fácil de se fazer. Mistura-se aveia fina, aveia
grossa, óleo, açúcar mascavo e condimentos à gosto. Faz-se bolinhas, achata-as,
coloca-as na assadeira e leva ao forno. Quarenta minutos após, os biscoitos
estão lindos, apetitosos. A conquista está na nossa cara. Meu filho prepara um
suco para acompanhar o lanche. Eu arrumo a mesa. Sentamos. Diante do pote com biscoitos, pegamos cada
um, um. Meu filho, beberica do suco, enquanto me observa dar a primeira
mordida. Crocante, escutamos o barulho. O açúcar mascavo se faz presente, os
flocos de aveia também. Um gosto bom, muito bom, doce e, forte, muito forte,
esquenta a garganta, esquenta muito a minha garganta, arde... vejo os olhos do
meu filho se abrindo e se espantando, “bebe o suco mamãe...” Eu bebo, volto a
respirar, bebo mais um gole e digo: “O suco está perfeito!”
Sabor de cura:
Outra crise de tosses me aprisiona. A terceira seguida, na mesma época do ano,
no frio e na secura da cidade. Água acalma a tosse só enquanto está passando
pela garganta. A tosse retorna. A água também. E o banheiro não me deixa. Tiro
o moletom para fazer xixi. O vaso está gelado. Tusso. O xixi sai com força.
Tusso sem parar. Acabo de urinar. Sigo para dentro das colchas. Outro gole de
água. Tusso. E não paro de tossir. O telefone toca, uma amiga tenta dizer algo.
Não escuto. Tusso. Novamente tusso. Dá tempo de me despedir e desligo o
telefone. Bebo água. Levanto novamente para fazer xixi. A campainha toca. É
minha amiga, ela me dá balinhas. Balinhas? Forma curiosa de curar uma tosse.
Abro o pacote. Tusso. Pego uma bala. Tusso. Tossindo, descasco a bala. Coloco a pequenina na minha
boca. Tusso. Sinto o gosto do mel, é bom, quente, levemente ardido,
anestesiante. Bom. Muito bom. Não preciso mais de tanto banheiro. Preciso de
muitas balas.
Sabor de Criança:
Preciso de muitas balas. Nas crises alérgicas da minha garganta. E para suprir
as vontades alérgicas da pele de meu filho. É proibida a friagem no meu
pescoço, eu aprendo. É proibido o consumo de corantes e aromatizantes na pele
do meu filho, aprendemos. Balas, pirulitos, chicletes estão proibidos... Como
assim? Criança sem guloseimas? Não me contento. Lembro das balas da cura.
Ofereço. Meu filho detesta, elas lhe ardem. Busco outras marcas, acho. Ofereço.
Elas lhe ardem. Busco outras. Acho um pirulito. Caseiro. Provo. Muito bom, doce
e um leve, muito leve ardido, no fim. Compro um monte. Preparo uma espécie de
compoteira de cristal, repleta de pirulitos. Convido meu filho para a festa das
gulosices. Ele vem. Curioso. Vê o cristal recheado. Escolhe um, descasca e
prova, “Bom mamãe, muito bom, doce, muito doce, gostoso. Oba! Que bom, tenho
pirulitos só para mim!”
E assim,
Defino o gengibre para mim:
Tem gosto de gargalhadas, de crianças,
De solidão amparada, de conquistas, tentativas,
De cura e de lembranças,
Doces e fortes, sim.
Fernanda
Matos.