Foto: Felipe, Porto de Galinhas, Jan 2010



terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Toca-me


Lá está você,
Solto no chão,
Diante de mim,
Cansado de não,
Como um velho pano de cetim.

Eu me aproximo,
Reparo tuas formas, teus traços,
Teus cabelos grisalhos.
Teu Corpo,
Chama-me: Toca-me...

Eu te toco,
Acaricio tua pele macia.
Sinto tua temperatura, tua energia,
Teu clamor, teu glamour, teu calor, tua
Chama. Toca-me...

Eu te toco mais,
Meus lábios
Reconhecem os teus,
O teu pescoço, o teu colo, o teu... Corpo inteiro.
Chama-me. Toca-me.

Eu entrelaço
Minhas linhas nas tuas.
Entre. Laço.
Sinto novas tramas, novas chamas:
Chamas-me: Toca-me...

Eu te deformo,
Levemente. Minhas formas
Te in-formam, des-formam, formam:
O Teu, a minha, a nossa mansa
Transa. Toca-me...

Toca-me mais, mais e mais...

Cá está você,
Solto no meu colchão,
Diante de mim,
Eu cansada de não,
Te desejando SIM:
TOCA-ME...

Fernanda Barros de Matos
Do livro “Danças do Cotidiano”

Coluna "SER O QUE SE É" - Revista Terceiro Milênio

“As crianças são verdadeiros sábios!”

           Há uns dez anos, escutei de uma amiga essas poucas palavras, e desde então, venho constatando sua veracidade, no convívio com meu filho, minhas sobrinhas e os amiguinhos deles, indiretamente no consultório e ainda, na minha própria vida, numa análise retrospectiva.
           Há na natureza da criança a realeza de Ser O Que Se É!
           Lembro-me quando muito pequena, gostava de estar entre as amigas, que não eram muitas, uma, duas ou três no máximo, sempre fui tímida. Nós gostávamos de brincar de bonecas, de casinha e de conversar. Eu gostava de falar e escutar sobre a vida, sobre os amores e as dores. Sim, eu tinha uns seis anos e já amava e já sofria... Crianças também sentem!
           Lembro-me ainda, que quando aprendi a escrever, eu vivia pelos cantos do meu quarto com agendas, diários, cadernetas onde escrevia meus segredos, meus sonhos e minhas poesias.
           Eu fui crescendo e os desenhos passaram a fazer parte de mim, assim, como as fórmulas matemáticas e as questões da física... Nessa época, os diários existiam um pouco mais afastados, afastando as poesias. Os números foram tomando peso, me formei em engenharia. Eu não mais escrevia, só contava. Segui contando por mais sete anos. Meus colegas de trabalho também contavam... contavam-me os seus segredos, os seus sonhos, sobre a vida, seus amores, suas dores. Os números foram indo, voltavam as letras.
           A vida dá voltas para passear, para aprender, mas retorna a sua natureza, a sua essência, a sua marca digital, se assim lhe for permitido!
            É com muito prazer que hoje me apresento como Psicóloga e Escritora. Aquela criança que vivia em mim, ainda vive e escuta, fala e escreve sobre as coisas da vida. E com muito entusiasmo, apresento-lhes a nova coluna do Terceiro Milênio, Ser o Que Se É, um espaço desejado por mim, feito também por você: Sua criança ainda vive em você? Escreva para mim, vamos conversar sobre crianças, sobre sonhos, sobre relacionamentos, sobre profissões, sobre a vida...

Fernanda Barros de Matos
fernanda.barros.matos@gmail.com

Coluna Relacionamentos - Jornal BsB Condomínios

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A Queda e o Depois

Imagem de Waldir Catanzaro


Fecho os meus olhos:
Sinto o vento nos cabelos. Estou quase voando como o vento. Voando para o chão... Seguro nos cabelos dele. Escorrego para a esquerda, meu pé esquerdo está preso, isso parece bom. Tento apertar as minhas pernas, eu não consigo. O vento é rápido demais! Ouço gritos que atravessam o vento, mas não os entendo. Sinto meu corpo cada vez mais solto. Tento segurar-me em seu pescoço, mas ele se mexe como o vento. Olho para frente, o fim da pista, vejo o portão, a montanha, muitas pedras no chão. Olho um pouco para o lado, lama, e mais em frente, muro. Meu pé esquerdo está preso, isso é muito ruim. Tento soltá-lo, eu consigo. E eu vôo, para o chão. Penso: ‘Fudeu!’ Cadê Ele? Será que vai voar como o vento, atravessando-me como se eu fosse o chão? Sinto medo, muito medo. Longe, vejo meu filho, ele está no chão e corre em minha direção. O que aconteceu? Com ele? Comigo? Qual parte do meu corpo que machucou? Não sinto nada. Não choro. Não vejo. O vento parou. Ouço uma voz: “Não se mexe!” Sinto uma mão no meu pescoço. Abro os olhos. É meu amigo, meu professor. Confio e ouço: “Solta o pescoço devagar em minhas mãos. Vou deitar você. Vou esticar suas pernas.” Minha perna esquerda dói, isso não parece bom. Nada mais dói, isso parece bom. O vento está parado. Eu estou parada no chão. A perna esquerda dói menos, que bom! Lentamente me movimento, vejo meu corpo marrom, lama por todos os lados e entre os meus cabelos. Viro meu corpo para a direita. Estou bem. Olho meu filho. Está assustado. Levanto com a ajuda do professor. Estou bem. O corpo está quente. Vários olhos assustados me olham. Eu chamo pelo meu cavalo. E monto nele, o cavalo. A aula acabou. O susto passou. Sinto raiva, de mim e dele. Caminho com ele até sua baia, e o deixo lá. Não quero cuidar dele. Cuido de mim. Tento lavar-me. Há lama até nas minhas roupas íntimas. Há lama na minha intimidade. Vou para casa. Meu filho me cuida e depois vai para a casa do pai. Fico só. Deito na cama. Meu corpo começa a esfriar. A perna esquerda dói. As costas doem.
Fecho os meus olhos:
Sinto o vento nos cabelos. Estou quase voando como o vento. Voando para o chão... Seguro as rédeas, elas estão frouxas. Tento ajustá-las. Há um segundo obstáculo. Devo ou não pulá-lo? Dúvida. Já era. Pulamos. Escorrego para a esquerda, tento apertar as minhas pernas. O vento é rápido demais! Tento segurar-me em seu pescoço. Olho para frente, vejo muitas pedras no chão. Lama. E eu vôo, para o chão. Penso: ‘Fudeu!’ Sinto muito medo. O que aconteceu? Ouço uma voz: “Não se mexe!” O vento está parado. Eu estou parada no chão. Estou bem. Olho meu filho. Está assustado. Levanto com a ajuda do professor. E monto nele, o cavalo. Há lama na minha intimidade. Fico só. Deito na cama. As costas doem. Choro. Eu errei!
Fecho os meus olhos:
Sinto o vento nos cabelos. Estou voando como o vento. O vento é rápido demais! Lama. Chão. ‘Fudeu!’ Sinto muito medo. Há lama na minha intimidade. Fico só. Deito na cama. As costas doem. Choro. Eu errei!
Fecho os meus olhos:
Lama. ‘Fudeu!’ Medo. Só. Deito. As costas doem. Eu errei!
Abro os meus olhos:
O telefone toca. A voz. O professor: “Como você está?” Melhor. As costas doem. Eu errei. Sinto Medo! Ouço: “Montar a cavalo pode ser perigoso, mas assim como o é viver. Os obstáculos nos desafiam. A vida tem desafios. Estamos prontos para vencê-los, se estivermos seguramente sentados, com rédeas na justa medida, acompanhando o movimento, de olhos abertos, olhando para frente, confiantes, nós fazemos a nossa parte, Ele faz a Dele.”
Fecho os meus olhos: A Queda.
As costas ainda doem.
Abro os meus olhos: E o Depois.
A vida tem desafios. Eu faço a minha parte. Ele faz a Dele.

Fernanda Barros de Matos